domingo, 15 de novembro de 2009

Estelionato - Golpes Manjados

CORREIO BRAZILIENSE, 13/11/2001.

Não se deixe enrolar
Aprenda a se defender dos golpes cada vez mais criativos e modernos dos estelionatários no Distrito Federal
Da Redação
Arte: Kacio

Conto do bilhete premiado, do paco, clonagem de cartões de crédito. Alguns já estão na praça há muito tempo, outros avançam junto à tecnologia, mas todos são exemplos de golpes aplicados no Distrito Federal. Na maior parte dos casos, a ingenuidade e ambição das vítimas são as causas dos golpes. Mas crescem os crimes em que a pessoa sequer imagina como foi vítima de um estelionatário.
Em outubro passado, a aposentada Maria das Graças (nome fictício), 63 anos, voltava para casa depois de sacar sua aposentadoria em uma agência bancária quando viu no chão o que parecia ser um pacote de dinheiro. A senhora apanhou o pacotinho, cuja primeira nota era de R$ 50,00, e começou a procurar pelo possível dono do dinheiro. Foi quando apareceu um rapaz dizendo ter perdido a tal quantia. ‘‘Entreguei o dinheiro e ele agradeceu muito. Quando estava indo embora, disse que eu era uma pessoa bondosa e merecia uma recompensa’’, explica.
Foi quando se deu o golpe. O rapaz pediu que a aposentada o acompanhasse à agência, onde retiraria o tal prêmio. Com uma boa conversa, o criminoso envolveu a vítima, que sequer sentiu quando ele tirou de sua bolsa todo o pagamento de R$ 1,2 mil. Chegando ao banco, o rapaz sacou uma nota de R$ 50,00 e entregou a Maria das Graças, que seguiu satisfeita para casa. ‘‘Quando me dei conta de que havia sido roubada, ele já estava longe’’, relembra.
A delegada titular da 2ªDP (Asa Norte), Eneida Orbage, explica que é comum, ainda hoje em dia, as pessoas caírem nesse tipo de golpe. ‘‘Infelizmente acontece e as vítimas, nesses casos, normalmente são mulheres e idosos, pessoas de comportamento mais atencioso. Os homens têm perfil psicológico diferente, não costumam dar conversa para estranhos’’, ensina a delegada, que foi titular da Delegacia de Defraudações durante dois anos.
Apesar de golpes como esse serem comuns na cidade, os estelionatários estão quebrando a cabeça para inventar golpes cada vez mais sofisticados, evitando assim a desconfiança das vítimas. A clonagem, por exemplo, virou moda no DF e não se restringe mais aos cartões de crédito.
Celulares e cheques também engrossam a lista dos crimes. O roubo de celulares vem chamando a atenção da polícia. Só na 2ªDP foram registrados mil casos neste ano. Em uma das categorias do golpe, o falsário muda o número de série do aparelho roubado e o vende como se fosse novo. Os preços bem mais baratos do que os praticados no mercado atraem os compradores, normalmente por meio de anúncios em jornais. Tão fácil quanto o do celular é o golpe do carro. Na esperança de vender o veículo mais rapidamente, muitos deixam o bem consignado em agências especializadas, que depois de conseguirem um comprador e receberem o dinheiro, não o repassam para o dono. Para escapar da armadilha o proprietário deve ficar atento na hora de transferir o veículo. Só assine o DUT após receber o dinheiro. Em caso de cheque, depois de confirmada sua compensação.

CONHEÇA OS GOLPES MAIS COMUNS

Clonagem de cartões de crédito
A clonagem pode acontecer de três formas. Nas mais simples, o estelionatário pega o cartão magnético da vítima antes dela recebê-lo (em casa ou no banco) e faz uma cópia, ou o ladrão trabalha em algum estabelecimento comercial e faz a clonagem do cartão no ato da compra. A mais moderna, porém, é a clonagem do cartão no caixa eletrônico. É colocada uma fita especial na máquina que retém o cartão quando a vítima efetua o saque. Ele então se oferece para ajudá-lo e pede para que digite a senha, numa tentativa de fazer o cartão sair. Depois, aconselha a vítima a chamar um funcionário e, enquanto isso, retira o cartão, o clona e o recoloca no lugar.
Dica: Peça a cópia (com o papel carbono) com os dados do cartão de crédito. É sempre prudente rasgá-los. Fique atento para onde o funcionário do estabelecimento leva o cartão e, se possível, acompanhe-o.

Clonagem de celular
O estelionatário passa-se por funcionário da empresa de celular e liga para a vítima, pedindo para que ela digite um certo número no telefone. Com apenas essa ação, ele consegue clonar o número e a linha e passa a usá-la indiscriminadamente.
Dica: Verifique qualquer contato feito pela operadora do serviço de telefonia celular e compre sempre aparelhos em empresas credenciadas.
Golpe do falso gerente
O ladrão finge ser um funcionário do banco que quer diminuir as filas para o caixa. Ele então recolhe as guias de depósito e o dinheiro dos cliente para agilizar o atendimento. Depois, calmamente, vai embora do banco com o dinheiro recolhido.
Dica: Nunca aceite ajuda de estranhos quando estiver sacando dinheiro em caixas eletrônicos.

Troca de cartões
O estelionatário oferece ajuda a uma pessoa com dificuldades nas operações do caixa eletrônico. Ele então a ensina a usar a máquina e, na ação, memoriza a senha da vítima. Depois, retira rapidamente o cartão da máquina e troca por outro. Quando a vítima percebe a troca, o ladrão já sumiu e está efetuando saques em outros caixas.
Dica: Nunca permita que pessoas estranhas manejem seu cartão bancário.

Golpe do consórcio sorteado
Os bandidos anunciam, em jornais de grande circulação, a venda de ágios de consórcios sorteados que devem receber os carros direto da fábrica. Para efetuar a venda, eles pedem que os interessados mandem por fax as cópias dos documentos oficiais e paguem uma pequena taxa no banco. As vítimas recebem então cópias do contrato, nota fiscal e o suposto pedido do carro à fábrica. Confiante nesses documentos, elas pagam o valor do ágio, geralmente depositado em contas de bancos paulistas. A operação costuma ser feita por telefones celulares. Depois de depositar o dinheiro, a vítima descobre que os documentos que recebeu são falsos.

Dica: Não pague qualquer taxa antes de receber o bem em questão.
Previna-se
Não confie em estranhos que lhe abordem na rua
Jamais entregue bolsa, documentos ou dinheiro a ninguém
Cuidado com dados e documentos pessoais
Não forneça dados pessoais ou digite números pelo telefone
Evite deixar documentos nas portarias de prédios públicos
Preste atenção nos prazos de entrega de talões de cheque. Se não chegou no tempo prometido, procure o banco
Não deixe de fazer boletim de ocorrência registrando perda, desvio, furto ou roubo de documentos


Correio, 02.12.2005
ESTELIONATO
Uma fraude por dia. Delegacia de Falsificações e Defraudações da Polícia Civil registrou pelo menos 200 golpes do veículo desde o começo do ano. Quatro pessoas também caíram no velho conto do bilhete premiado
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Carolina Caraballo Da equipe do Correio
Kleber Lima/CB

Luiz Henrique teve o cartão de crédito clonado duas vezes: “E depois ainda temos que provar para o banco que somos honestos”
Paulo H. Carvalho/CB/28.4.04

“As quadrilhas estão muito organizadas. Alugam um barraco só para terem comprovante de residência e conseguirem uma linha telefônica”
Domingos Sávio, delegado da Polícia Civil


O crime é inafiançável. A pena pode chegar até cinco anos de reclusão. Os estelionatários, no entanto, contam com duas aliadas poderosas – a tecnologia e a distância – para confiar na impunidade. Chips instalados em caixas automáticos podem armazenar as informações de um cartão bancário. Com um anúncio nos classificados e uma linha telefônica, vende-se carros que sequer existem. Documentos pessoais roubados podem ser o suficiente para abrir uma conta bancária e comprar à prazo, pedir empréstimos. Por dia, no Distrito Federal, pelo menos uma pessoa é vítima de algum tipo de estelionato.
Há 15 anos, a realidade era bem diferente. O golpista precisava ter uma veia artística e contava com a ingenuidade da vítima. Mas, armações como o golpe do bilhete premiado estão perto de se tornar folclore. A encenação costuma ser protagonizada por dois golpistas. Um finge ser bastante humilde e ingênuo. Ele explica que ganhou na loteria, mas não sabe como resgatar o dinheiro. E pede a ajuda da vítima. O comparsa, sempre bem-vestido, finge interesse em colaborar com a situação. Cabe a ele convencer a vítima a entregar certa quantia de dinheiro como garantia de que ela não tentará fugir com o prêmio. Na semana passada, a aposentada Odete (nome fictício), 53 anos, por pouco não na cai cilada e entrega R$ 5 mil para os golpistas (leia depoimento ao lado).
“Eu já conhecia a armação, pregaram a mesma peça na minha irmã, em Belo Horizonte”, confessou. “Mas os dois bandidos eram tão convincentes que eu realmente acreditei na história.” De acordo com a Delegacia de Falsificações e Defraudações (DEF), as vítimas do bilhete premiado costumam ser mulheres. O golpe é aplicado em áreas com grande concentração de bancos, como Asa Sul, Asa Norte, Taguatinga e Ceilândia. Dados da DEF apontam que quatro pessoas caíram no golpe do bilhete premiado desde o começo do ano até agora.
O delegado da DEF, Domingos Sávio, explica que os estelionatários não querem mais se arriscar, evitam ter contato direto com a vítima e preferem ações mais lucrativas. Dessa forma, armações como o golpe do veículo são campeões no número de vítimas. Só neste ano, 200 pessoas se interessaram por carros anunciados em classificados, pagaram 10% do valor da compra como entrada e nunca receberam o veículo. “As quadrilhas estão muito organizadas.”, afirmou Sávio. “Eles alugam um barraco só para terem comprovante de residência e conseguirem uma linha telefônica. Alguns têm até fax.”

Posto de gasolina
Evitar o golpe do veículo ou do empréstimo pessoal (veja quadro) não é difícil. Basta desconfiar de oportunidades muito vantajosas oferecidas por empresas desconhecidas. O crime que mais preocupa o consumidor, no entanto, é aquele contra o qual não se pode precaver.O funcionário público Luiz Henrique Chavarry da Silva, 53 anos, teve o cartão de crédito clonado duas vezes. A primeira vez ocorreu em 2003. “Estranhei porque só usava o cartão para abastecer o carro e fazer compras no supermercado. Minhas faturas não chegavam a R$ 800 por mês”, relembra. “Quando liguei para o banco, descobri que tinham comprado R$ 3 mil com meu cartão. Desses, R$ 2 mil foram gastos em uma sapataria em Luziânia.”
Em setembro deste ano, Luiz Henrique descobriu que o cartão de crédito havia sido clonado pela segunda vez. “Na fatura apareceu uma compra de celular feita em Goiânia”, contou. “Quem usa cartão de crédito está sujeito à sorte. E depois ainda temos que provar para o banco que somos honestos e que não fizemos esta ou aquela compra.”
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DEPOIMENTO
Oferta de R$ 100 mil para receber o prêmio “Estava na comercial de uma quadra na Asa Norte, quando percebi que um homem vestido com terno e gravata estava ao meu lado. Ele comentou comigo como era difícil atravessar a rua naquele local. Quando chegamos ao outro lado da calçada, um sujeito que parecia ter vindo da roça nos abordou. Disse que era analfabeto e precisava de ajuda para retirar um prêmio das loterias da Caixa Econômica Federal. Duvidei que fosse verdade, mas o homem de terno falou que poderia confirmar se o bilhete era premiado. Ligou para um gerente da Caixa, conferiu o jogo e disse que o valor do prêmio era maior do que R$ 1 milhão. O caipira ficou com medo de que alguém tentasse roubar o bilhete. O homem de terno garantiu que era empresário. Disse que tinha U$ 50 mil em casa e ofereceu a quantia como garantia das boas intenções. O caipira disse que estava sem documentos, e me ofereceu R$ 100 mil para transferir o dinheiro para minha conta e depois entregar para ele. Mas pediu R$ 5 mil como garantia. Pedi, então, para o empresário ficar com o caipira e disse que iria sozinha ao caixa automático tirar o dinheiro. No caminho, descobri que não houve ganhador no concurso do bilhete supostamente premiado. Era um golpe.”

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Odete (nome fictício), 63 anos, mora na Asa Norte

ESTELIONATOS
Alerta contra os golpes
Criminosos lançam, a cada dia, modalidades novas. Polícia Civil já identificou 17 tipos. Muitos são conhecidos, mas ainda fazem vítimas

Márcia Leite

A cada mês, um novo golpe. As modalidades são diversas. Os estelionatários têm buscado inúmeras formas de fraudar, enganar e roubar a população. A Delegacia de Falsificações e Defraudações de Brasília (DEF) investigou os golpes mais recentes e com o maior número de ocorrências nos últimos meses no Distrito Federal. São 17 tipos apurados e que têm tirado o sono de pessoas honestas.
A delegada-chefe da DEF, Eneida Orbage Taquary, alerta que é preciso um cuidado redobrado para que não haja mais vítimas. "Os novos mecanismos de fraudes são cada vez mais elaborados. Os golpistas criam um cenário que denota seriedade e veracidade. Não se pode acreditar que o dinheiro irá até a pessoa tão facilmente. É preciso checar sempre todos os dados e verificar as informações pessoalmente", orienta.
Um outro alerta é que a vítima deve desconfiar de supostas vantagens. Em geral, as pessoas se empolgam ao saber que podem receber uma quantia em dinheiro e acabam caindo no golpe. A prática mais recente fez cinco vítimas, todos servidores públicos aposentados. M. foi uma delas. Ela não imaginou que estivesse sendo enganada e caiu no golpe do fundo de pensão.
Após receber um telegrama com a informação de que havia um valor proveniente do fundo de pensão da Associação Nacional de Previdência Privada (ANPP) para ser resgatado, um suposto advogado de São Paulo, que se identificou como Bertolino Luis da Silva, entrou em contado por telefone. "Ele explicou que a quantia era uma correção que eu e meu marido tínhamos direito a mais, de R$ 24 mil", conta M.
Decepção
Ela resolveu confirmar os dados do advogado. Tudo estava correto, endereço do escritório, telefone e até o número de inscrição na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). "Achei que estivesse agindo corretamente. Depois que verifiquei tudo, fiz o depósito que ele pediu, no valor de R$ 1.052, mas nunca recebemos a quantia que ele havia prometido", lamenta M.
A delegada diz que todos os casos estão sendo investigados pela 9ª Delegacia de Polícia (Lago Norte). "Os dados utilizados para aplicar o golpe realmente são de um advogado de São Paulo. Ele ficou espantado ao saber que seu nome estava sendo usado para aplicar o golpe. Vamos seguir com as investigações", afirma Eneida.
"Os golpistas criam um cenário que denota seriedade e veracidade. Não se pode acreditar que o dinheiro vem facilmente"
Eneida Orbage, delegada da DEF
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Crimes especializados
O golpe do seqüestro, que já fez inúmeras vítimas, também foi "atualizado". Agora, a vítima recebe um telefonema pelo qual o estelionatário diz ser da companhia telefônica, e avisa que
a linha do usuário apresenta problemas e que o aparelho precisa ser desligado pelo prazo de uma hora.
Nesse intervalo, o estelionatário liga para os parentes da vítima e diz que ela foi seqüestrada, exigindo um depósito para o resgate. Com o telefone desligado e impossibilitado para receber chamadas, o golpe é facilmente aplicado.
Recentemente, outra fraude também levou o dinheiro de inocentes. A reportagem do Jornal de Brasília mostrou como o golpe do protesto fez outras vítimas. A partir de editais publicados em veículos impressos, os estelionatários tiveram acesso aos dados das empresas devedoras. Bastou um telefonema. De um lado, a suposta central de protestos. Do outro, o devedor em desespero ao ser avisado que tinha poucas horas para quitar a dívida. Dessa maneira, a vítima efetuava o depósito e descobria o prejuízo tarde demais.

Dinheiro fácil
O golpe do dinheiro fácil também não pára de fazer vítimas. Uma mulher, de 50 anos, que prefere não se identificar, confessa que foi mais uma a cair na armadilha. Com a filha necessitando de um transplante de rim, ela se empolgou com o anúncio oferecendo crédito de até R$ 50 mil. Com o objetivo de tomar R$ 30 mil emprestado, ela ligou e fechou o negócio. Para receber a carta de crédito, precisaria depositar R$ 350. O dinheiro foi enviado, mas ela nunca conseguiu tirar o empréstimo. "Fui cair num golpe desses já com 50 anos. Acho que foi o desespero para ajudar minha filha. Mas fica aí um alerta", afirma ela.
A Polícia Civil faz não só o alerta para os tipos de golpes como dá orientações à população. O JBr selecionou dez dos 17 golpes mais comuns (veja quadro acima) para que as pessoas fiquem alertas.
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Cedoc/15.06.04/DAVI ZOCOLI

Welton Trindade: "Algumas vítimas preferem o silêncio"
Campanha estimula denúncia
Malu Pires
Um golpe muito comum é o chamado "Boa Noite Cinderela". Para evitá-lo, a comunidade LGBT (lésbica, gay, bissexual e transexual) acaba de lançar a segunda edição da campanha "Cuidado Com Suas Companhias". O objetivo é alertar esta faixa da população para a ocorrência deste golpe, segundo Welton Trindade, presidente da Estruturação, entidade representativa destas orientações sexuais.
O golpe é caracterizado pela sedução da vítima em bares, boates ou até pela internet. No encontro, é colocado um potente sonífero na bebida ou no chiclete. A pessoa fica dopada e o golpista rouba pertences e dinheiro. "Mas há relatos, também, de assassinatos ocorridos nestas situações", afirma Welton.
O que dificulta a elucidação destas ocorrências, afirma ele, é o medo que as vítimas têm de se identificar. "Por razões como vergonha ou medo de expor sua preferência sexual, algumas vítimas preferem o silêncio", conta Welton, assinalando que esta é a razão pela qual as estatísticas policiais não identificam com clareza este tipo de crime. "Apesar de ser comum em Brasília", acrescenta Welton.
Defesa
A denúncia é a melhor maneira de defender o grupo, diz ele. Quem seguir esta orientação, poderá contar com o apoio jurídico e psicológico da Estruturação, por meio de atividades do Centro de Referência em Direitos Humanos LGBT. Outra entidade que apóia a campanha é a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Legislativa.

Jornal de Brasília, 08.04.2007 - Cidades

CB, 19.01.2006
Tem golpista na linha telefônica
Segundo balanço da Polícia Civil em janeiro, dois brasilienses caem diariamente em golpes aplicados por meio de celulares. Bandidos simulam seqüestro para extorquir dinheiro das vítimas
Leandro Bisa - Da equipe do Correio

É preciso cuidado ao falar ao telefone, principalmente se há um desconhecido do outro lado da linha. Criminosos estão usando o aparelho para cometer uma série de golpes. E o problema é cada vez maior no Distrito Federal. “A febre começou no início do ano passado. E não pára de crescer”, concluiu o diretor-geral da Polícia Civil do DF (PCDF), delegado Laerte Bessa. Trinta e quatro ocorrências foram registradas nos primeiros 17 dias deste ano. A média é de duas por dia – bem superior a 2005, que teve 276 casos registrados durante o ano inteiro.
Mas Bessa acredita que o número de golpes aplicados seja pelos menos duas vezes maior do que o registrado pela polícia. Segundo ele, muita gente não procura as delegacias com vergonha. Foi o caso de um economista aposentado, de 68 anos, morador do Lago Sul, que prefere não se identificar. No último dia 14, um homem ligou para sua casa e disse que ele havia ganhado um sorteio. Mas, para receber os prêmios, deveria telefonar para um celular com prefixo do interior de São Paulo.
O aposentado seguiu as intrusões. O homem que atendeu pediu então à vítima para comprar, imediatamente, 20 cartões com créditos para celulares pré-pagos. O golpe só não foi adiante porque a filha do economista, uma policial que mora no sul do país e passa férias em Brasília, estranhou a conversa e tomou o telefone do pai. “Era um homem com linguajar grosso. E tinha um som de balbúrdia no fundo, semelhante a uma cela de presídio”, disse a policial, que também pediu anonimato, por motivo de segurança.
Para Laerte Bessa, o aposentado seria vítima do golpe telefônico mais comum. Os criminosos pedem às vítimas que comprem cartões de telefone e ditem os códigos deles. Assim, os bandidos ficam com os créditos. A história do sorteio ainda é usada para se conseguir números de série de celulares e dados pessoais. Com essas informações, os golpistas clonam telefones e intimidam familiares das vítimas com ameaças.
Relatório elaborado pelo Departamento de Atividades Especiais (Depate) da Polícia Civil, ao qual o Correio teve acesso, indica que o golpe do sorteio corresponde a 55,8% dos casos registrados em 2005 (confira arte). O do seqüestro está em segundo lugar. Corresponde a 18,8% do total. Bandidos ligam para uma pessoa, fingem ser bombeiros e dizem que parentes dela sofreram grave acidente. Depois, telefonam para outro familiar e o chantageia.
Do presídio
A família do advogado Gustavo Bósio, 25 anos, passou por isso há três dias. Um criminoso ligou para a casa dele e afirmou que seus pais haviam se acidentado. A irmã mais nova do advogado, uma jovem de 18 anos, atendeu. Eles pediram várias informações a ela, supostamente para confirmar a identidade das vítimas do desastre. Depois, pediram o número de uma pessoa mais velha da família. A jovem deu o telefone de Gustavo, que caiu no golpe (leia depoimento). “Os bandidos são muito convincentes”, declarou o diretor da Polícia Civil.
Segundo o relatório do Depate, a maioria das vítimas mora em Brasília. Foram 69 casos só no Plano Piloto. Depois vêm os moradores de Taguatinga (37 casos) e do Guará (34). As três cidades, juntas, registraram 50,7% das ocorrências. O dia com maior incidência é a terça-feira. O documento revela que 45,6% dos telefonemas aconteceram entre 12h e 18h e 34,4% entre 6h e 12h – horários de maior atividades nos presídios. Apenas 1,4% dos crimes ocorreu de madrugada.
“É normal esse golpe ser aplicado de dentro de penitenciárias. No ano passado, localizamos uma quadrilha que agia de dentro de Bangu 1, no Rio de Janeiro”, afirmou Bessa. Ele explicou que o golpe do telefone é executado por pessoas ligadas a facções e organizações criminosas. Dos 276 casos registrados, 11,2% das ligações partiram do Rio de Janeiro e 6,16% de São Paulo. O Ceará aparece em primeiro lugar com cerca de 40,5% dos telefonemas.
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Campanha educativa
A Polícia Civil iniciou ontem campanha de alerta à população sobre os golpes telefônicos. Policiais estão nos principais shoppings da cidade distribuindo folhetos explicativos. Os agentes orientam o brasiliense a não fornecer nenhum dado por telefone, caso não saiba com quem está falando. Também pedem que o cidadão não pague qualquer valor ou compre cartões. A Polícia vai distribuir 20 mil folhetos – outros 20 mil são confeccionados.
O diretor-adjunto da Divisão de Repressão a Seqüestros, Flamarion Vidal, disse que a melhor maneira de combater esse tipo de crime é a prevenção. Isto porque as empresas telefônicas se recusam a fornecer, imediatamente, informações sobre os telefones de origem das ligações, com a alegação de que estariam quebrando o sigilo telefônico de seus clientes.
A polícia precisa enviar ofício à Justiça e aguardar a decisão. A burocracia faz com que os investigadores percam tempo. Como os bandidos costumam trocar de aparelho rapidamente, fica difícil descobrir a autoria dos crimes. Ainda mais porque a maioria dos bandidos está fora da capital federal. Segundo o diretor da Polícia Laerte Bessa, ainda não foi identificado nenhum telefonema criminoso com origem nos presídios do Distrito Federal (LB).

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DEPOIMENTO - GUSTAVO BOSI

Família ameaçada
Ligaram para mim e perguntaram: “O que o Valdir é do senhor?”. Meu pai, respondi. Então a pessoa disse que havia seqüestrado ele e minha mãe. Descreveu a fisionomia deles, o carro e o trabalho de meu pai. Queriam R$ 30 mil para soltá-los. Eu disse que não tinha isso e não poderia arrumar em pouco tempo. Então ouvi: já que é assim, pode encomendar duas coroas de flores. Fiquei desesperado.
O bandido começou a negociar. Disse que se eu desligasse ele não retornaria e mataria meus pais. Eu falei que tinha R$ 4 mil na conta. Ele respondeu que servia. Saí do meu trabalho, no Fórum de Ceilândia, e fui ao banco, onde saquei o dinheiro. Conversei com ele e outro homem por mais de uma hora. Fizeram terror o tempo inteiro. Falaram que meu pai havia mandado dizer que me amava.
Mandaram eu depositar o dinheiro em outro banco, em uma conta do Rio de Janeiro. Com certeza eram cariocas, por causa do sotaque. Quando saí do banco, mandaram eu ir ao cemitério mais próximo. Quando cheguei, eles desligaram. Meu pai ligou em seguida e disse que estava no trabalho. Comecei a chorar.
Enquanto eles falavam comigo, não arrisquei fazer nada. O terror é muito grande. Eu só queria ver meus pais. A gente acha que é culto o suficiente ao ponto de nunca cair em uma dessas, mas não é bem assim.

(Gustavo Bosi, 25 anos, advogado e morador de Taguatinga. Ele foi vítima do golpe na segunda-feira).

9 comentários:

Maluh disse...

Olá, professor George! Meu nome é Maria Luiza, sou sua aluna da turma B. Enviei na semana passada algumas respostas de questões de provas anteriores para o seu e-mail e gostaria de saber se as recebeu. Grata! Boa semana!

inaiane disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Bruno A. Soares disse...

Professor, como o espaço das provas já está com bastante comentarios, resolvi esclarecer minha dúvida aqui. Havendo uma injuria simples e outra com conotação racial ( Paragrafo 3º) há que se cogitar em retorsão, ou é pressuposto que além dessa retorsão ser verbal, a onfesa esteja em um mesmo patamar de reprovabilidade?

Professor George Leite disse...

A questão realmente enseja uma reflexão mais acurada. Penso que há de haver uma proporcionalidade entre o fato e a retorsão. Por exemplo, se alguém chama um negro de crioulo safado, ou dá uma bofetada no rosto, e recebe de volta uma injúria simples, não tenho dúvida de que o juiz deve aplicar o perdão. Mas se a injúria simples é respondida por outra qualificada, me parece que não há de ensejar o perdão em sua forma plena, devendo influir apenas na dosimetria penal.

Raissa disse...

profº, vim aqui para te reelembrar (como você pediu)de observar aquele assunto sobre as faltas que conversamos na ultima aula. grata, e espero sua compreensão. Raíssa da turma A (matutino).

Manu disse...

Professor enviei e-mail para o senhor e o senhor não alterou minha primeira menção no espaço aluno.. estou aguardando ansiosa
bom final de semana

krlos_henrique disse...

Professor George,

Olhei no site do Ceub agora e está dizendo que no mês de Novembro eu tive 14 FALTAS, o que me fez REPROVAR em sua matéria por ausência. Está havendo algum engano, não faltei nenhuma aula no mês de Novembro! Não sei como agir diante de tal fato. Quando o senhor me ver saberá que é engano pois seguramente me viu em todas suas aulas. Sempre sentei na frente e não conversava. Amanhã me dirigirei ao UniCeub para tentar corrigir esta confusão. Será que teria como nos encontrarmos ou falarmos por telefone?

Grato.
Carlos Henrique Brito, TURMA B.

Professor George Leite disse...

Para Carlos Henrique: uma vez lançada a menção, não há como retificá-la, a não ser mediante o processo de revisão de menção, que deve ser requerido no prazo de oito dias depois da publicação das notas. Aconselho-o a fazer o quanto o quanto antes, porque depois de passado esse prazo, não há como obter a revisão. Boa sorte!

loufiandra disse...

Quer saber mais golpes? Meu marido
teve um fulano Em São Paulo, e moramos no Interior, que se apropiou
de seus dados pessoais e ficou fazendo cartão um após o outro
e comprando e as operadoras bestiais
até repetia o cartão e tomava golpe
duas vezes, pode tanto desleixo,e o que fazemos com isso, de vai e volta
do nome dele o Serasa, e eles corrigindo suas besteiras...
Pode!!! Moramos em outra cidade...